O Conto da Carrodependência

Autor: Martin Montingelli

Quando o automóvel foi inventado, era improvável que qualquer pessoa pudesse prever os seus efeitos sociais. Quando foi apresentado pela primeira vez, ficou conhecido como a “carruagem sem cavalos”, uma tecnologia clássica a ser aperfeiçoada em lugar do cavalo e da charrete. Mas logo na década de 20, o impacto expressivo do automóvel já era óbvio. Um escritor do New York Times, em 1923, descreveu desta forma: “Não há uma fase da vida americana que não tenha sido afetada pelo automóvel. Os americanos não medem mais as distâncias em milhas, mas em minutos”. Terras isoladas se tornaram escolha de propriedade, a partir do momento em que uma via expressa atravessou o lugar. O automóvel facilitou a evasão e o vocabulário americano enriqueceu com palavras como “flivver” (automóvel pequeno e barato), “skid” (derrapagem) e “jaywalker” (pedestre imprudente). O automóvel conquistou os corações, imaginações e livros de bolso dos americanos.

E mesmo este autor não poderia ter previsto os caminhos que o automóvel continuaria a formar e simbolizar na nossa sociedade. Atualmente, o carro é considerado tanto um símbolo de status quanto uma necessidade. Os carros se tornaram casa particular, uma miniatura da “casa fora de casa”. Nós cantamos, comemos, falamos ao telefone, assistimos TV, trabalhamos e até arrumamos o cabelo dentro deles.

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Um outro impacto não-previsto do automóvel é a criação de uma “sociedade descartável”, termo inventado em 1970 por Alvin ToffIer em O Choque do Futuro. Toffler sustenta que: “Foi a indústria automotiva a primeira a conseguir destruir a noção tradicional de que a maior aquisição teria que ser um compromisso permanente.” Tornou-se mais fácil comprar um carro novo do que consertar e manter um velho (a maior parte das garantias de fábrica tem um período de apenas 3 anos). O automóvel determinou o passo para a mentalidade “descartável”: papel e plásticos descartáveis, restaurantes fast-food e assim por diante.

O automóvel também mudou a nossa forma de trabalhar e nos divertir. Herbert Muller afirma que “ o automóvel estimulou a emigração para as áreas mais distantes dos grandes centros e criou tantas outras novidades, como os supermercados e shopping centers. Ele levava os pais para o trabalho, as mães para as lojas, os jovens para a escola… E desde o início trouxe alegria aos corações dos americanos, quando o guiavam sentiam uma sensação estimulante de liberdade, poder e de possível mobilidade social.

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As mudanças que essa invenção trouxe para a sociedade, teve impacto de escala global com efeitos irreversíveis, comparados a uma doença que rapidamente se alastrou por todo globo. Uma epidemia que dura até os dias de hoje e que em breve deve permear mais algumas gerações.

Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas), em um mês, o trânsito brasileiro mata, em média, 4,1 mil pessoas e causa a invalidez permanente de outras 43,2 mil. Os números consolidados são mais expressivos que os registrados pela guerra entre palestinos e israelenses, que em julho deixou mais de 1,3 mil mortos e seis mil feridos. Os casos de invalidez também incluem os acidentes com pedestres, que correspondem 22% de todas as mortes no trânsito no mundo e, em alguns países, alcançam dois terços do total. Os dados são da OMS (organização mundial da Saúde).

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Se prosseguir como estão as estatísticas atuais, a entidade estima que 1,9 milhão de pessoas deverão morrer no trânsito em 2020 e 2,4 milhões, em 2030. Nesse período, entre 20 milhões e 50 milhões de pessoas sobreviverão aos acidentes a cada ano com traumatismos e ferimentos. O crescimento da frota do veículo pode ser um dos motivos para o aumento exacerbado de incidências. Dados do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) apontam que da frota nacional conta com  60,9 milhões de veículos.


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A DESCOBERTA DA DOENÇA

A descoberta foi feita na China em 1672 por Ferdinand Verbiest, membro de uma missão jesuíta. A aparente insatisfação que assola muitos membros de nossa espécie levou à descoberta que modificou totalmente a maneira como vivemos. Uma das mais importantes descobertas já feitas durante a história e que influencia a maneira como agimos ou pensamos até hoje.

Ferdinand notou que após o surgimento da substância ativa “motor a vapor”, precisava inventar algo capaz de transformar nossa sociedade para sempre. Após algumas tentativas surgiu a primeira idéia, que possivelmente, deu origem a primeira espécie já vista de um vírus batizado de “Carrus”, capaz de transportar humanos.

O início da história do “Carrus” pode ser dividido em um certo número de eras, com base nos meios comuns de propulsão. Períodos posteriores foram definidos por tendências de estilo exterior, tamanho e preferências dos portadores. Experiências isoladas, realizadas em toda a Europa, ao longo das décadas de 1860 e 1870, contribuíram para o aparecimento de algo semelhante ao “Carrus” atual.

 

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A DOENÇA

A CARRODEPENDÊNCIA é uma doença transmitida pelo vírus “Carrus” (Do Latim “carrus“, que significava o carro romano de duas rodas usado em guerras. No Latim, carrus vem do gaulês, karros, com origem provável no proto-indo-europeu krsos, cuja base é kers, que significa “correr”). É altamente contagiosa e com freqüente aparecimento de complicações decorrentes de outras enfermidades, é considerada uma doença séria.

O Ministério da Saúde não adverte, mas se você costuma sentir dores de cabeça, falta de ar, dor na coluna e uma vontade incontrolável de viver em cidades cinzas, caóticas, poluidas, barulhentas, repletas de congestionamentos, doenças respiratórias, sedentarismo, stress, acidentes, viadutos, estacionamentos, combustíveis fósseis, multas, radares, rodízio e marronzinhos, cuidado: Você pode ser um portador da C.D.A (carro dependência adquirida).

A doença é de difícil detecção, depois de alojado no corpo do indivíduo costuma frequentemente infectar famílias inteiras, colegas de trabalho, de classe e parceiros mesmo sem relação sexual. Os sintomas são mais graves que uma gripe normal. A C.D.A também pode ser uma doença hereditária, normalmente encontrado na mídia impressa, digital e social, encomendada pelos fabricantes de automóveis e governantes não maltados.

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OS SINTOMAS

Os primeiros sintomas surgem na infância com o “Carrus” de brinquedo e tendem a se agravar durante a adolecência, provocando sonhos e delírios de ganhar “Carrus” ao completar os 18 anos. Casos mais comuns foram observados tentando passear, ir ao trabalho, só até a padaria, sentindo o vento no rosto, curtindo a paisagem, totalmente estagnados no sinal. Outros mais graves o portador apresenta sintomas de surdez parcial ou total e geralmente são encontrados escutando som em volume além do permitido por lei em todos os gêneros musicais. Sofrem de crise de adrenalina totalflex capaz de provocar aceleradas incontroláveis podendo causar a morte do portador ou transeuntes.

Crises agúdas de C.D.A foram detectadas recentemente e o resultado das pesquisas indicam as principais queixas dos portadores são: ausência de pista de rolagem, excesso de autuações, alta nos preços dos combustíveis, proibição do consumo de bebida alcoolica e uso do celular ao volante, a extensão do rodízio, vistoria obrigatória e o desaparecimento dos estacionamentos mensais acessíveis.

Constatou-se que a C.D.A também prejudica a locomoção do indivíduo e dos demais portadores da doença, gerando records de congestionamentos, causando uma diminuição significante e irreversível do tempo de vida útil e disperdício de recursos naturais e financeiros. Nos casos mais graves, a Carrodependência pode levar à total fragmentação do tecido social e consequente morte das cidades.


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TRATAMENTO

Especialistas concluiram que uma das principais formas de combater a C.D.A é através do uso contínuo de uma substância ativa descoberta antes do automóvel, capaz de resgatar a qualidade de vida do portador potencial, evitando a abstinência do “Carrus”. Estudos afirmam que a descoberta feita em meados do século XIX, derivada do latim bi (dois) e do grego kyklos (rodas) tem crescido exponencialmente e hoje tem ganhando espaço nas cidades de todo mundo nas recém-inauguradas vias vermelhas chamadas de ciclovias, ciclofaixas, repletas de ciclocoisas e ciclovidas.

A aplicação diária da vacina Anti-carrus chamada “Bicicleta” provoca benefícios quase instantâneos, estimulando a percepção de liberdade, qualidade de vida, resgate do humor, locomoção voluntária, saúde pública, economia sustentável, independência, prazer, e milhares de outras vantagens. Existem relatos que o uso contínuo da “Bicicleta” estimula o desejo de evolução da espécie, resgate do tempo perdido, aumenta o ciclo de amizades, evitando a depressão, sedentarismo, proporcionando um mundo melhor.

A cura da C.D.A. também se dá tomando doses de remédio manipulado. Tomar sem jejum 2x ao dia. O remédio é encontrado facilmente nas principais cidades brasileiras, e muito fácil de preparar, basta seguir a receita abaixo.

– 3 colher de Metrô

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– 2 colher de ônibus

Faixa de ônibus da avenida Dr. Arnaldo será aberta no dia 10

– 40 gotas de caminhada

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A persistirem os sintomas, procure orientação médica.

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